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Eduardo Campos - Meizinhas do sertão


É o sentimento de amizade e colaboração que une o sertanejo uns aos outros. O que é ciência, isto é ensinamento que proporcione conforto, saúde ou melhoria de via para o seu semelhante, é logo ensinado a outros sem reservas. O desejo generalizado é que um número sempre maior de pessoas receba os benefícios de um bom conselho, de uma receita de meizinha, ou de uma simpls oração que repetida duas ou três vezes afugente qualquer moléstia. Somente sob a influência da feitiçaria poderiam os sertanejos negar os seus serviços. Mas, livres das influências dos despachos das macumbas, porque não receberam em sua região a influência decisiva dos negros, a medicina popular é exercida em sua área geográfica sem maiores mistérios. Todo mundo tem satisfação de passar adiante conhecimentos “médicos”, não cobrando por recomendá-los a terceiros.


Mesmo a maior parte dos profissionais — se é que assim podemos denominar os curandeiros rezadores ou raizeiros — não gosta de receber dinheiro como pagamento de seus serviços. Quase todos os tipos curiosos que arrolamos em nossos estudos — que vêm de muito tempo desde as primeiras pesquisas que nos serviram preciosos elementos para o Medicina popular — se recusam a receber dinheiro em pagamento aos ensalmos e receitas. Via de regra recebem animais de criação doméstica, galinhas etc.

— Não receber num carece… Se vosmincê quiser me agradar, me dê qualquer coisa…

Precisa ser esclarecido se nesse gesto não está configurdo um tabu. proibição que, no caso de ser violada, redunde no castigo do curandeiro fracassar em seus tratamentos. Mas, de qualquer maneira, a atitude é feliz e pode ser traduzida num gesto de compreensão e ajuda aos desvalidos.

Mas, não são apenas os curandeiros que receitam. Quase todo sertanejo é um médico em potencial. Sabe receitas as mais diversas a respeito desse ou daquele achaque, não deixando passar a oportunidade de ensiná-las a amigos e até, com mais frequência, a pessoas a quem nem conhece ao menos. Com a mesma facilidade que o homem do povo se intromete numa conversa para prestar auxílio, informando a direção de uma loja etc., fá-lo entre desconhecidos, sem ser chamado aintervir, aconselhando os remédios mais estapafúrdios.

Diante da desconfiança dos circunstantes, lança a sua frase decisiva:

— Estou dizendo porque se passou comigo. Eu vivia assim e hoje estou outro homem. Abaixo de Deus quem me salvou foi a meizinha…

Convence sempre. E, assim, vão se repetindo os remédios, as receitas, formando o acervo já bastante considerável da medicina popular. Para esse trabalho de hoje, conseguimos inventariar mais de uma dezena de receitas que são ouvidas com mais frequência:

1) Para curar íngua, nada melhor do que se colocar o pé sobre uma trempe — no meio do terreiro — cortando o mal da seguinte maneira, três vezes:
“Um, dois, três
Íngua nenhuma!”

2) Quando o doente está atacado de íngua reimosa, deve procurar a mais bonita estrela que houver no céu, apontá-la com o dedo e recitar:

“Estrela bonita e bela
Morra a íngua e fique ela!”

O lugar da inflamação deve ser igualmente apontado todas as vezes que o enfermo disser a palavra: íngua.

3) Para inflamações das partes pundentes nada mais aconselhável do que a lavagem das mesmas com a entre-casca da umarizeira.

4) Para os mesmos achaques não há como fazer defumação com o fogo obtido das tábuas de uma caixinha de charutos, geralmente feita de cedro.

5) Beber água de aliança (usa-se a água ou o chá, contanto que se coloque dentro do copo ou da xícara a aliança de casal) serve para evitar aborto.

6) A erisipela acalma de repente com a oração que se segue:

“Isipra, isipela, isipelão
De tutano vai pro osso
Do osso vai pra carne
Da carne pra pele
Da pele pras ondas do mar sagrado”

Em seguida, o paciente deve rezar um Padre Nosso e uma Salve Rainha.

7) A entrecasca da raiz do burdão de velho é santo remédio para as oftalmias. É preciso que se lave em nove águas, pois a última em já livre de toda escuma, é que serve para banhar os olhos enfermos.

8) Contra hemorragia do nariz, nada melhor do que banhar os cabelos da cabeça com água bastante fria. A receita serve igualmente para dor de cabeça.

9) Cessa a dor de ouvido com aplicações locais do sumo da folha do manjericão e óleo de pequi.

10) O café de formiga saúva é remédio, dos bons, indicado para aliviar o puxado (asma).

11) O sumo cozido da malva do reino, bebido com mel de abelha, é remédio quase milagroso contra os acessos de tosse.

12) Engolir semente de mamão é mesmo que tomar um bom vermífugo.

13) Para mal jeito no corpo não há como se tomar, todo o dia, ao amanhecer, chá de mastruço com clara de ovo.

É só.

Campos, Eduardo. “Meizinhas do sertão”. Unitário. Fortaleza, 22 de março de 1958
Fonte:Jangada Brasil

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