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As aventuras do filho de Cobra Choca


A deusa da poesia
com sua seta em mim toca
pra eu falar sobre um valente
pior que siri na toca
descrevendo As aventuras
do filho de Cobra Choca.

Pois Antônio Cobra Choca

na brigada era bonzinho
no engenho Jundiaí
enfrentou tudo sozinho
brigou e casou com a filha
do coronel Vicentinho.

O coronel era brabo

mas Cobra Choca o venceu
casando com Izabel
um filho ela concebeu
Cobra aí disse: — Esse vai
assumir o lugar meu.

Olhando o recém-nascido

em sua face se via
o gigante da coragem
enxortando a covardia
nas mãos pequenas, bravura
e nos gestos valentia.

Mesmo alguém diz que o destino

é impossível evitá-lo
o homem tem que cumpri-lo
por não poder desprezá-lo
e "o filho só puxa ao pai
quando ele rouba cavalo".

Assim o filho ao nascer

por Joaquim foi batizado
e com oito anos era
gordo, bonito e corado
mas bastante arruaceiro
perverso e desassombrado.



Todo dia por comum

Joaquim formava um azar
na cabeçada era bamba
rasteira sabia dar
dava surrote em menino
qu'era capaz de matar.

Com vinte anos dizia:

— Papai comigo se troca
pois minha parada é outra
comigo ou vai ou papoca
e todos saibam que eu
sou o filho de Cobra Choca.

— Meu pai amansou no pau

o coronel Vicentinho
e eu brigando com dez
me considero sozinho
e mesmo o povo diz que
"filho de gato é gatinho".

Pra mim medo é maluquice

e cara feia é moleza
grito nunca me assombrou
pois é rival de fraqueza
temer a morte é perdido
porque se tem com certeza.

Joaquim só andava armado

com revólver e cartucheira
um punhal de uma banda
e da outra uma peixeira
quando ele queria dava
dia santo na ribeira.

Porém um amigo seu

que ia pra o Paraná
lhe chamou e ele disse:
— Segues que fico por cá
com três meses o rapaz
veio apanhado de lá.

Chegando disse a Joaquim

não gostei daquele estado
por causa de um namoro
quase lá fico enterrado
pois da surra que levei
inda estou adoentado.

E disse mais a Joaquim:

— Lá existe um fazendeiro
é uma serpente brava
tem o gênio carniceiro
e sua fazenda é
abrigo de cangaceiro.

Ele sangra por brinquedo

e bebe o sangue sorrindo
arranca a orelha, dá pisa
vive como um cão rangindo
se o "cabra" fala a verdade
ele diz que está mentindo.

Grita assim abertamente

a nortista eu dou "tempeiro"
só anda com um punhal
um facão, um granadeiro
quem trabalha em suas terras
nem pense em ganhar dinheiro

Desonrar pra ele é lei

matar pra ele é comum
para lutando vencê-lo
nunca apareceu nenhum
também nunca ele passou
um dia sem matar um.

É coisa muito difícil

pra com ele se falar
pra entrar na casa grande
precisa o chapéu tirar
se ajoelhar em seus pés
com muito jeito os beijar.

Ainda tem uma filha

a qual quer bastante bem
o nome dela é Marilsa
grande boniteza tem
mas ele diz: — Minha filha
não se casa com ninguém.

Quem quiser perder a vida

venha namorar com ela
eu de besta me meti
a conquistar a donzela
quase que morro no pau
e perdi o amor dela.

Aí Joaquim Cobra Choca

lhe pediu informação
perguntando o endereço
e o nome do valentão
o rapaz disse: é Servino
assombro da região.

Cobra Choca novo disse:

— Vou vingar a sua pisa
porque este meu punhal
a valentão não alisa
mesmo esse cabra safado
eu sei que dele precisa.

O rapaz disse: — Está doido!

não vá que morre, Joaquim
Joaquim disse: — Medo é manha
ele não presta eu sou ruim
só digo que ele é brabo
se ele também der em mim.

— Eu vou vê se ele brigando

mostra coragem e bravura
se seu punhal tiver ponta
o meu punhal também fura
a doença de valente
sei qual é o chá que cura.

Disse que ia ao seu pai

o qual não lhe deu reprovo
apenas só fez dizer:
— Se vencer terá meu louvo
porém se apanhar por lá
aqui apanha de novo.

Ao despedir-se dos pais

arrumou o matulão
ajeitou as suas armas
e deu adeus ao sertão
disse — Vou ao Paraná.
amansar um valentão.

Ao sair das Alagoas

disse: — Adeus povo daqui
passou Maranhão e Rio
lembrando Jundiaí
passou São Paulo dizendo:
meu negócio é mais ali.

E chegando em Paranà

perguntou para saber
onde ficava a fazenda
mas ninguém soube dizer
disse ele: — Só descanso
quando o valentão me ver.

Mas ao chegar numa vila

teve boa informação
um disse: — Eu sei onde é
a fazenda "meu patrão"
as terras de "Seu Servino"
ficam desta direção.

Joaquim seguiu sem demora

pela vereda informada
entrou nas terras do velho
sem se entimidar com nada
porém andou pouco tempo
deu logo grande brigada.

Porque numa encruzilhada

encontrou um cangaceiro.
o bandido vendo ele
disse: — Aquele tem dinheiro
deu um grito perguntando:
— Pra onde vai forasteiro?

Joaquim disse: — Minha vida

não conto nem à mulher
o cangaceiro gritou:
— O que é que você quer?
Joaquim Cobra Choca disse:
— Quero o que você quiser.

O cangaceiro veloz

do burro saltou em baixo
mas Joaquim o agarrou
dizendo: — Eu dou-lhe o despacho
quem for mais forte é quem ganha
aqui é macho com macho.

Tapa vai e tapa vem

e nas facas se travaram
como galo no terreiro
ali os dois se enrolaram
o poeriço cobriu
mais de uma hora brigaram.

Joaquim na luta gritava:

— Que briguinha colosso
e suspendendo o capanga
jogou no chão com esforço
quebrou-lhe quatro costelas
uma perna e o pescoço.

O corpo do tal bandido

como um bagaço ficou
Joaquim pegou o cadáver
dentro do mato jogou
e depois desassombrado
pra casa grande marchou.

Porém ficou abismado

porque quando lá chegando
no alpendre da fazenda
viu uma moça chorando
logo da dita donzela
ele foi se aproximando

Justamente meus amigos

era Marilsa Barbosa
a filha do tal Servino
que chorava desgostosa
Joaquim perguntou: — Mocinha
porque é que estás chorosa?

Respondeu ela a Joaquim:

— Tenho razão de chorar
porque o prazer da moça
é ser amada e amar
mas o caso é que papai
me proíbe namorar.

— Diz papai que se um dia

eu namorar com alguém
ele matará meu noivo
e me matará também
é por isto que os rapazes
daqui não me querem bem.

Joaquim disse: — Se você

topou a minha faxada
pode se abraçar comigo
que agora mesmo é beijada
e deixe o resto comigo
que eu toparei a parada.

Disse ela: — Se tem coragem

meu coração eu lhe dou
Joaquim deu-lhe um abraço
boca com boca encostou
ela achou tão gostoso
que a lágrima chega pingou.

Mas é que neste momento

o velho vinha chegando
com dezoito cangaceiros
e quando foi avistando
o rapaz beijando a moça
de raiva ficou babando.

E gritou: — Cabra cretino

eu vou dar-lhe uma lição
disse para seus capangas
— Peguem esse cabra à mão
que um atrevido desse
se mata de cinturão.

Joaquim resguardou Marilsa

e gritou: — Lá vai macama
deu logo um pulo de banda
e puxou a sua faca
larga, cortante e comprida
que parecia uma estaca.

Os cutelos se tiniam

faíscas azuis voavam
era chegando capangas
e na luta logo entravam
o sangue no chão corria
uns gemiam outros gritavam.

Se ouvia baque e gemido

murro, tiro e cacetada
no meio de toda luta
Joaquim gritou por charada?
- Cobra Choca novo vai
começar sua brigada.

O velho gritou: — Eu brigo

até o fim da semana
só paro quando pegar
esse sujeito sacana
arrancar seu coração
assar e tomar com cana.

Joaquim pulou nessas frases

com o velho se agarrou
deu-lhe um murro tão danado
que o velho no chão rolou
e ele saltou em cima
aí o velho atracou.

Joaquim pegou na garganta

do velho, quase que tora
e gritou: — Ou dar-me a moça
ou lhe mato nesta hora
o velho gritou: — Me solte
e pode levá-la agora.

A velha chegou tremendo

gritou: — Solte meu marido
Marilsa já lhe pertence
você por ela é querido
mas se meu velho morrer
pra mim está tudo perdido.

Marilsa chegou ali

chorando de alegria
toda briga se acabou
casaram-se no outro dia
e Servino o valentão
desprezou a valentia.

Pra festa de casamento

veio muitas tabaroas
houve leilões, botequins
danças, cantorias, loas,
depois Joaquim resolveu
voltar para Alagoas.

Ele despediu-se do

velho e da velha também
quebrou o chapéu na testa
seguiu junto com seu bem
mas quando se está com sorte
o diabo sempre intervém.

Mesmo a sorte é uma página

dum livro misterioso
que faz a metamorfose
do ente desventuroso
lhe deixando mais feliz
ou então mais desditoso.

Pois quando ele já estava

no centro do Maranhão
numa grande travessia
encontrou um batalhão
e o mesmo se compunha
de desordeiro e ladrão.

O chefe dos cangaceiros

quando viu a mulher dele
disse: — Ou lapa de menina
não perco um peixe daquele
vou tomar ela para mim
e vocês fiquem com ele.

Joaquim vendo a desgraça

do burro pulou no chão
deu um revólver a Marilsa
e ficou com um facão
disse: — Eu mato a metade
você o outro quinhão.

Nisto um bandido, logo

pra ele foi avançando
Joaquim passou-lhe o facão
foi-lhe a cabeça arrancando
e o corpo sem cabeça
ficou danado pulando.

Um bandido pulou para

pegar Marilsa de vez
disse ela: — Cabras safados
vou me casar com vocês
aí arrastou o dedo
de um só tiro matou seis

Joaquim disse para um cabra:

— Você hoje topa macho
aí passou-lhe o facão
fez do bucho dele um facho
e o pedaço de cima
caiu antes que o de baixo

Marilsa atirou num cabra

que saiu do outro lado
fez um buraco tão grande
que eu fiquei admirado
pois dava para passar
um caminhão carregado.

Joaquim deu uma pesada

no bucho de um sujeito
foi carne por todo canto
e feijão saiu de eito
faça de conta que viu
porque se deu desse jeito.

Outro atirou em Marilsa

porém não pôde matá-la
ela disse: — O seu castigo
é engolir uma bala
só do medo antes do tiro
ele perdeu logo a fala.

Quando foi com duas horas

era feio o estandarde
pois ali tinha defuntos
caído por toda parte
Joaquim gritava: negrada
eu pra brigar tenho arte.

Quando só restava quatro

bandidos do batalhão
que viram Joaquim partir
pra eles com o facão
correram que os pés cavavam
grandes buracos no chão.

O chefão ficou sozinho

como fera enraivecida
dando pancada e levando
pra ver se salvava a vida
porém isso que ele teve
foi só vontade perdida.

Diz Cobra Choca pra ele:

— Você é cabra de peia
como é que o sujeito
deseja a mulher alheia
e quer vir tomá-la à força
isso é coisa muito feia.

— Eu podia perdoar

suas ações desgraçadas
porém vou só lhe dizer
suas horas estão contadas
porque por castigo eu vou
lhe dar quinze punhaladas.

O sujeito lhe pediu

por tudo quanto é sagrado
mas ele não atendeu
lhe deixando esburacado
pior que papel de renda
quando já bastante usando.

Marilsa e Joaquim portanto

logo dali desabaram
com destino às Alagoas
novamente eles marcharam
e os que ficaram mortos
aos urubus engordaram.

Em Alagoas chegaram

a viagem foi penosa
mas lá Joaquim foi viver
com sua esposa formosa
que é para o leitor
quem tem coragem é quem goza

Joaquim contou ao seu pai

tudo quanto conquistou
seu pai disse: meu bom filho
como prova do que sou
o revólver do meu uso
como medalha te dou.

Em Alagoas Joaquim

uma casa construiu
foi viver com sua esposa
conforme consentiu
e os netos de seus netos
ele velhinho inda viu.

Assim Joaquim Cobra Choca

honrou o nome do pai
mostrou que a sorte é traçada
e a ela ninguém trai
pois quando a justiça julga
a perversidade cai.

E mesmo a perversidade

não gosta bem da justiça
porque a justiça é
a bandeira que se iça
no céu da boa vontade
que o perverso cobiça.

Mas se Joaquim fosse mole

A sua noiva era a morte
Na vida venceu porque
O nosso Deus deu-lhe a sorte
E por ter coragem e dom.
Livre foi conviver com
Marilsa sua consorte.

O folheto é dois cruzeiros

de comprar um não se negue
porque quem não me comprar
a miséria lhe persegue
a desgraça lhe procura
e a desventura lhe segue.

Fim
Poemas e Poesias 2026061178150581575

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O Donzelo Azarado

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