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A Experiência Transcendental de Zé Freire


Augusto Cesar Magalhães Pinto

José Freire Sobrinho, o popular Zé Freire, que já retratei em outra crônica, continua residindo na Fazenda Esperança e hoje acha-se muito ligado a corrente mística por conta de uns fatos inexplicáveis que lhe aconteceram. O primeiro refere-se a uma viagem que ele fazia de Esperança a Quixadá antes do dia amanhecer, e como se diz bom motorista, em alta velocidade. Quando se achava próximo uma curva muito fechada ou viu uma voz que lhe dizia:
- Diminua a velocidade, Zé, que tem muito gado na pista! Obedecendo aos ditames da voz misteriosa, reduziu bruscamente a velocidade e logo que entrou na curva, constatou haver pelo menos duas dezenas de reses malhadas sobre o asfalto, ciente de que se não tivesse sido avisado tempestivamente sofreria um terrível acidente, pois havia abismo de ambos os lados do asfalto.
Havia com ele na cabine mais duas pessoas e ao indagar se alguém havia ouvindo alguma voz e eles se entreolharam e responderam negativamente. Ele ficou encabulado e guardou total silêncio sobre o assunto para não ser chamado de mentiroso.
De outra vez, num ano de rigoroso inverno houve um acidente com uma pessoa na esperança e a ambulância estava quebrada. A vítima era um adolescente que se acidentara de motocicleta e necessitava de um socorro urgente. Sem medir esforços o Zé partiu naquela noite chuvosa rumo ao Hospital Regional São Francisco, em Canindé. conduzindo o paciente acolitado pelos familiares. O carro por várias vezes quis atolar, mas a experiência de piloto calejado falou mais alto e sua destreza foi decisiva para que seu velho corcel não encalhasse no mar de lama que se transformou a estrada carroçável. Vencida essa difícil etapa, chegou com seu possante veículo ao asfalto da estrada estadual que liga Canindé a Quixadá, onde fizeram rápida parada para constatar a situação do carro. Estando tudo bem, partiram novamente rumo ao destino acertado, a uma boa velocidade, com extrema atenção pelo tempo chuvoso que predominava. De repente o Zé Freire ouviu uma voz:
- Zé, pára o carro que a correnteza do rio levou a ponte!
Atônito obedeceu a voz de comando freando o carro lentamente, por ter a noção exata da distância que faltava para chegar na ponte. Estacionado o veículo os ocupantes indagaram o que houve e o Zé disse que teve um pressentimento e ia ver se era verdadeiro. Ato contínuo, de posse de uma lanterna, caminhou até o rio e lá constatou que de fato a ponte tinha caído. Retornou ao carro emocionado e contou o fato ocorrido que resultou em grande comoção entre o ele e seus passageiros.
A viagem não pôde seguir em frente e ele foi para Quixadá onde o acidentado ficou internado, tendo o Zé retornado imediatamente, sozinho, para Esperança. Estava muito pensativo e durante todo o trajeto veio refletindo sobre a natureza efêmera da vida, ciente de que se não fosse avisado tempestivamente pela voz misteriosa, teria sofrido um acidente de conseqüências imprevisíveis. E foi nesse clima que chegou em casa juntamente com os primeiros raios solares, daquele esplendoroso amanhecer sertanejo.
Ao ouvir o barulho do carro sua jovem esposa abriu a porta e de imediato serviu-lhe o café passado há pouco, e ele passou a narrar, com riqueza de detalhes, todo ocorrido e abraçaram-se comovidos ao lembrar que ele poderia não ter retornado vivo. Ela sugeriu que ele fosse dormir, já que tinha passado a noite em claro, enquanto ela ia ao povoado comprar alguns ingredientes para preparar uma cevada galinha caipira.
O Zé entrou no quarto, deitou-se, e constatou a saída da sua esposa, através do barulho característico da velha fechadura da porta da rua, no momento que ela deu as duas voltas. Fechou os olhos e em vão tentou dormir, mas o pensamento plenamente ativo o mantinha em alerta. Sentou na cama e ficou a contemplar o oratório que mantém no quarto, e, ajoelhado, resolveu confabular com o criador.
- Meu Deus, eu sei que foi o senhor que me avisou. Se não fosse o senhor eu não sei onde estaria agora, muito obrigado!
De repente ele ouviu uma voz igualzinha aquela que lhe deu o aviso.
- Zé, eu não sou Deus, eu sou seu anjo da guarda. Desde que você nasceu eu recebi a missão de protegê-lo e vou cumprir esta missão até o fim!
Zé Freire assustou-se e quase entra em pânico, e a voz misteriosa o acalmou dizendo palavras reconfortantes e ele logo ficou todo a vontade e já ensaiava os primeiros lances de intimidade com aquela figura mística, afinal, estava em singularíssima situação e privilegiadamente diante do seu protetor divino.
- Ô meu anjinho, me desculpe a indelicadeza, mas desde que nasci que sou um sofredor, já passei tanto momento difícil, só da morte eu já escapei pra lá de dez vezes e só agora, bem dizer no fim da vida, é que o senhor me aparece!
O anjo, bondosamente retrucou suas palavras e passou a lembrá-lo de diversos momentos de sua vida atribulada e dos episódios dos quais, miraculosamente, saiu ileso, destacando sua discreta, porém decisiva, atuação em cada um deles. A mente do Zé naquele momento, como num “vídeo-taipe”, relembrou, com lágrimas nos olhos, os pormenores daqueles difíceis momentos e conscientizou-se da pronta intervenção do seu benfeitor.
A essas alturas, a lembrança dos fatídicos episódios e a experiência transcendental de poder dialogar com seu anjo da guarda, fascinou o Zé Freire que ficou em êxtase total. Mesmo assim ele não conseguiu dissociar-se de seu espírito brincalhão e buscou esticar conversa amena com seu protetor.
- Meu anjinho, eu sou muito grato por tudo que o senhor me fez todos esses anos; eu que me achava um desamparado da sorte, agora tô vendo o quanto eu sou protegido. Mas, com todo respeito, o senhor aceita reclamação?
O anjo bonachão, que conhecia há décadas a irreverência do seu protegido, com um sorriso no canto da boca, respondeu.
- Pois não Zé, sou todo ouvidos.
- Por onde o senhor andava na época que eu inventei de me casar, que não avisou nada?
Dizem que os anjos não tem sexo, mas tem senso de humor. Prova disso é que o anjo deu uma gargalhada tão ruidosa, que até a mulher do Zé que há pouco tinha retornado de forma imperceptível, ouviu, e em seguida falou:
- Tu tá ficando doido Zé, agora deu pra rir sozinho.

Fonte: http://vilacamposonline.blogspot.com
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O Donzelo Azarado

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