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Os jangadeiros cantadores

Por Joaquim Ribeiro

Onde o sentimento artístico dos praieiros aparece com maior intensidade?

Creio que no canto e na poesia. O cantador, de regra, é poeta e violeiro.

Em quase todas as praias do Nordeste, o canto popular surge como reflexo do lirismo singelo dos pescadores. E é aí, no canto, ora acompanhado pelo pinho (viola), ora pela sanfona, ou, nas festas, por vários instrumentos populares (ganzá, viola, sanfona etc.), que podemos apreciar o flagrante lírico dessas populações. Todos eles, os praieiros, cantam, tocam viola e parece que aprenderam o ritmo da cadência das ondas do mar. Fixou Rodrigues de Carvalho, no Cancioneiro do Norte, a índole musical dessas gentes de nossa orla marítima:

"Partindo da vida praiana, veremos o jangadeiro, queimado ao sol, bronzeado, de musculatura possante, em trajes domingueiros, calças de algodão alvejantes, camisa anilada, chapéu de carnaúba, feliz e expansivo, a contar as últimas proezas da pesca. Um refere histórias de almas do outro mundo em pleno mar: 'Ali nos baixios onde virou a jangada de tio João etc.' Outros tagarelam sobre as moçoilas do lugar e quase todos, enfim, à sombra das caiçaras (palhoças) batem no pinho (viola), cada um por sua vez, entoando cantigas repassadas de uma doce ternura, num ritmo de onda em balanço."

Repetem ainda os jangadeiros do ceará quadras do poeta Juvenal Galeno, como a seguinte:

Minha jangada de vela
Que vento queres levar?
De dia, vento da terra
De noite, vento do mar

Na praia de Tambaú (Paraíba), Ademar Vidal coligiu e enviou a Leonardo Mota esta trova de inegável beleza:

Os olhos desta menina
Às vezes gravo na areia
Parece malacacheta
Em noite de lua cheia

Na poesia praieira observam-se reminiscências dos usos e costumes das gentes da orla marítima. Rodrigues de Carvalho registrou:

Santa Maria lá fora
E o canoeiro remando
Lourenço se aperreando:
Mané Fulô, venha cá

Santa Maria reflete o habitualismo de dar nomes de santo às embarcações. É, aliás, costume antigo, herdado dos navegadores lusos. No Diário de Pero Lopes (século XVI) há, por exemplo, referência às naus São Vicente, São Miguel, Nossa Senhora das Candeias etc.

A paisagem dos coqueirais não passa despercebida ao vate anônimo das praias:

Ó que coqueiro tãoalto
Na beira do mar tão fundo
Esse nosso bem querer
Faz inveja a todo mundo

O cancioneiro praiano não é pobre e tem razão o poeta pescador quando proclama:

Tenho verso na cabeça
Como peixe tem o mar
Meu juízo é como o vento
Que espalha e torna a ajuntar

A despedida, tema cotidiano entre homens que todos os dias partem para o mar, sugere cantos dessa ordem:

Adeus, adeus, Tambaú
Terra do meu nascimento
Já me vejo degredado
Soltando velas ao vento

Confiante no amor, o jangadeiro pode afirmar:

Eu andei do mar em roda
Com uma vela branca acesa
Em todo mar achei fundo
E no teu peito firmeza

Paradigma de seu lirismo é a trova:

Eu vi teu rastro na areia
E pus-me a considerar
Grande mimo tem teu corpo
Que o rastro faz chorar!

Também persistem, nesses versos, vestígios de tempos já passados, como na quadra seguinte, onde provavelmente se alude à luta contra os ingleses na ocasião emque a esquadra britânica policiou o Atlântico, impedindo o tráfico negreiro:

Eu entrei do mar adentro
Fui brigar com os inguilês
Tomei chumbo derretido
Levei bala sete vez

Segue a poesia praiana a velha forma da quadra lusitana: ABCB na disposição das rimas, sendo o verso sempre septissilábico, com alguma liberdade nas cesuras.

Também são usados os pés de cantigas. Um deles é o seguinte:

Na praia do Cabedelo

como se vê das quadras paraibanas:

Na praia de Cabedelo
Sassanguei, não pude entrar
Avoei os ferros na água
Vi o farol saluçar

Na praia de Cabedelo
Quemme chamou foi Maria
Foi ela que me ensinou
Namorar, que eu não sabia

Essas quadras, cantadas geralmente ao som do pinho, diferem dos cosos, que constituem uma espécie de canto coral popular.

Rodrigues de Carvalho observou:

"Os cocos começaram nos engenhos de fabricar açúcar. Passaram para as praias e vão entrando nos salões. É uma dança inocente: reúnem-se moças e rapazes, formando uma grande roda, saindo cada figura por sua vez a dançar na roda, cantando, batendo palmas, em rojão binário, aotoque de tambores e ganzás".

Atribui o mencionado folclorista caráter ameríndio ao coco!

"A propósito da monotonia indígena na poesia, temos ainda hoje prova nos celebrados cocos populares do Norte em que a concepção é escassa e o vocabulário paupérrimo:

Bem-te-vi derrubou
Gameleira no chão

Isto é tirado em solo pelo mestre dos cocos, respondendo em coro a roda dos dançadores que fazem trejeitos com o corpo, dando palmas ritmadas:

Bem-te-vi derrubou
Gameleira no chão

Ou, então, neste outro exemplo, também do mesmo brinquedo:

Toca fogo no sapê
Pra nascer fulô

Respondem:

Pra nascer, pra nascer
Pra nascer fulô"

Mais adiante o mesmotradicionalista, no Cancioneiro do Norte, registra os seguintes cocos da praia do Poço, fazendo sugestivo comentário sobre o valor estético desse gênero popular:

Engenho Novo
Engenho Novo
Engenho Novo
Bota a roda pra rodar...

Roda o pai, roda a mãe
E roda a fia
E eu também sou da famia
Também quero embolar

* * *

Por isso mesmo
É que me chamo Ludagero
Sou pretinho, mas sou sero
No bater do maracá

(É estribilho empregado em diversos cantos)

Essas cantigas em si têm pouca expressão, mas a música e a dança lhe dão muita vida. O estro desses cantadores praianos é apoucado, mas a inspiração das toadas e das emboladas é rica de harmonia e sugestiva para a dança. O coco sem as palmas, o ganzá, o zabumba e a dança não seria digno de registro. O verso é insulso e peco. De um simples polissílabo fazem, muitas vezes, um estribilho que serve para entremear muitas quadras desenxabidas".

E conclui:

"Todo o encanto dessa nova criação, o coco, está no ritmo da toada, nos trejeitos e torcicolos da dança, na monotonia da zabumba e no xaque-xaque seco, sem emotividade, monótono e original, do ganzá".

A expressão coco, dada a esse canto, dança e música, deriva, sem dúvida, de ser o ganzá geralmente feito de coco cheio de seixinhos. Não há coco sem o acompanhamento do ganzá.

O lirismo praieiro, porém, encontra-se nas quadras cantadas pelos violeiros. Nos cocos, o fundo lírico, quando não está ausente, esboça-se tão minguado e monótono que não revela a gebiet estética dos jangadeiros.
(Ribeiro, Joaquim. Os brasileiros. Rio de Janeiro, Pallas; MEC, 1977, p.31-36)

Fonte:http://www.jangadabrasil.com.br/revista/outubro71/cn71010a.asp
Poemas e Poesias 7570386137922118821

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