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O Manto da Natureza

Eis essa belíssima obra do poeta de Pilar Manoel Xudu:

Despontou a alvorada
a natureza sorriu
a claridade desceu
a neve branca subiu
o dia chegou alegre
e a noite se despediu

O sol inda não surgiu
porém mostrou a clareza
balança as copas das árvores
brinca alegre a correnteza
apolo ilumina o mundo
se transforma a natureza

O gemido da burguesa
repercute pela mata
o branco leito do rio
parece feito de prata
se multiplica a espuma
no estrondo da cascata

Pelas ramas da batata
vai se escondendo o preá
com medo do bote certo
da serpente ou do guará
o juriti para o canto
temendo o maracajá

O ligeiro mangangá
passa nos ares zumbindo
as abelhas no cortiço
estão entrando e saindo
de que de perto a gente pensa
que o pau está se bolindo


E quando o sol vem saindo
feito uma bola de ouro
os bem-ti-vis vão pegando
mosca, mosquito e besouro
os anuns pretos catando
os carrapatos do touro

Urra o zebu dando estouro
como um trovão pelo ar
na porteira do curral
sem deixar ninguém entrar
jogando terra no lombo
caçando com quem brigar

A vaca lambendo ele
tirando a poeira fina
vê-se o bezerro apojar
no ubre duma turina
lhe dando um banho com a língua
só sendo Deus que lhe ensina

Desperta toda campina
no cantar da passarada
pia o gavião na serra
canta o nambu na chapada
geme a rolinha no ninho
pra consolar a ninhada

A raposa arrepiada
se aproxima do poleiro
espera que as galinhas
pulem no meio do terreiro
a que primeiro descer
é a que morre primeiro

Feliz está o vaqueiro
ordenhando a vacaria
já bebeu o leite quente
comeu da coalhada fria
e quando sai para o campo
canta, abóia e assovia

Nesta hora a poesia
em nós dois se manifesta
trazendo todos segredos
da solidão da floresta
as violas dedilhando
e no céu começa uma festa

A poesia só presta
do jeito desta daqui
nos cânticos de salomão
nos salmos do rei Davi
nas predições dos profetas
e nos milagres do Rabi

Eu digo porque já li
Deus é eterno conforto
ao navegante perdido
é Ele que mostra o porto
foi quem ressuscitou Lázaro
com quatro dias de morto

Eu mesmo fico absorto
diante tanta grandeza
olhando sol e a lua
dois faróis da natureza
ele com tanta quentura
ela com tanta frieza

Cada uma estrela acesa
é uma lâmpada divina
de dia está apagada
porém de noite ilumina
sem precisar bateria
energia ou gasolina

A providência divina
criou o mundo do nada
na terra espalhou as águas
uma d'outra separada
lugar que a água é doce
e n'outro a água é salgada

A terra é achatada
apesar de ser redonda
em cima o mar se agita
ruge, balança e estronda
parece querer fugir
no alvoroço da onda

Não há sábio que responda
esta pergunta que faço
quantos milhões de estrelas
Deus colocou no espaço
com tantos séculos de feito
sem despregar um pedaço

Gelo, umidade e mormaço
inverno e temperatura
raio, corisco e trovão
vento, frieza e quentura
são maravilhas eternas
da sacrossanta natura.

O dever da criatura
é reconhecer também
que poderoso só Deus
fora dele mais ninguém
castiga aqueles que erram
protege a quem faz o bem

Feliz o homem que tem
temor ao braço de Deus
pois ele ajudou Davi
na presença de Hebreus
quando liquidou Golias
o maior dos filisteus

Diante do grande Deus
foi que o bravo Sansão
já cego e muito humilhado
matou uma multidão
quando derribou o templo
de Dagon o Deus pagão

Querendo Deus, Salomão
adquiriu a ciência
Abraão vibrou na fé
Jó cresceu na paciência
e os irmãos Macabeus
mostraram tanta prudência

Pela luz da providência
o homem ganha o troféu
morre o corpo a alma sobe
envolta num grande véu
pra cantar glórias a Deus
no corpo angélico do céu

Eu cantando na viola
sei dizer sem haver erro
porque o povo acompanha
o defunto no enterro
o bezero mama na vaca
e a vaca lambe o bezerro

Meu verso sai sem emperro
eu sei dizer porque é
que a serpente se sobe
num pau sem ter mão e pé
mata um boi que é tão grande
tem medo dum jacaré

Enquanto em Deus tenho fé
eu sei dizer sem engano
porque ninguém se sai bem
quando troca com cigano
e a terra na translação
dá uma volta num ano

Depois que eu firmo plano
eu sei dizer sem desvelo
porque no vulcão tem fogo
e no pólo se encontra gelo
um urso é tão cabeludo
e um muçum não tem cabelo.

Manoel Xudu - O Imortal do Repente p.49-55
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O Donzelo Azarado

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