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Dois glosadores: Azulão e Borborema

Borborema há seis meses
Que percorria o sertão
Somente para glosar
Com Benedito Azulão
Para ouvir o seu talento
Encontrou ele em São Bento
Numa noite de São João

Azulão estava dançando
No convívio de alegria
Quando terminava a parte
Ele glosava e bebia
Recitava o seu poema
Falava no Borborema
Mas ele não conhecia

Borborema aproximou-se
Daquele grande festim
Falou com o dono da casa
O fazendeiro disse assim
Ele entrou para o salão
Cumprimentou Azulão,
Por esta maneira assim:

B: Boa noite, amigo Azulão
Atrás de quem eu andava
Há tempo que procurava
Pelas zonas do sertão
Chegou hoje a ocasião
Que desfruto o meu destino
Sou o Borborema ferino
Que gloso por linha reta
Eu faço medo a poeta
Como boi faz a menino

A: Se você ver Borborema
Lá na serra do Teixeira
Erguer sua cordilheira
Fazendo versos no tema
Você perde todo emblema
O meu gênio é soberano
Eu lhe tiro todo engano
Você perde muito feio
Não atravessa um rio cheio
Quanto mais um oceano

Nisto o dono da casa
Levantou-se e fez um riso
Disse para os poetas
Dois temas eu simpatizo
Na dança tem coisa boa
Dança só tem prejuízo

A: A dança é sociedade
É fruto que o amor tem
Porque a dança já vem
Da remota antiguidade
Não dança quem é covarde
Não honra sua pessoa
Eu danço que a poeira voa
Na volta que faz a dama
Quem dança namora e ama
Na dança tem coisa boa

B: Nos tempos que eu dançava
No durava o meu sapato
Fosse na praça ou no mato
Pouco dinheiro não dava
A minha roupa eu sujava
Saia de bolso liso
Perturbava o meu juízo
Perdia as noites de sono
O alheio chora o seu dono
Dança só traz prejuízo?

A: Na dança se goza a vida
Na dança não há tristeza
Na dança não há pobreza
Na dança a moça é querida
Na dança a velha é esquecida
Na dança se diz é loa
Na dança a dama é patroa
Na dança tudo é casado
Na dança tudo é gozado
Na dança tem coisa boa

B: Dança não tem confiança
Dança é que tem corrução
Dança é princípio do cão
A dança não tem bonança
Dança não tem finança
Dança quem for indeciso
Dança eu não simpatizo
Dança é da meretriz
Dança é gozo infeliz
Dança só traz prejuízo

A: Na dança não pega nada
Na dança é que bem se ama
Na dança é que se vê-se a dama
Na dança da umbigada
Na dança a moça é beijada
Na dança ninguém enjoa
Na dança o rapaz pregoa
Na dança o namoro fixa
Na dança a moça cochicha
Na dança tem coisa boa

B: Dança quem é manata
Dança é quem quebra honra
Dança é quem tem desonra
Dança também maltrata
Dança adoece e mata
Dança perturba o juízo
Dança relaxa o riso
Dança tira a vergonha
Dança acaba a cerimônia
Dança só traz prejuízo

A: Dança é fruto de amor
Aonde nasce a esperança
Na hora que o homem dança
Morrendo não sente a dor
O rapaz namorador
Quando ele se afeiçoa
Na hora que o harmonio zoa
Já ele está peneirando
Grita quem estiver olhando
Na dança tem coisa boa

B: A dança é condenada
A dança pode ser nobre
Seja rica ou seja pobre
Termina sendo falada
Nada sendo educada
Que dança seria sem riso
O malandro sem ser preciso
Difama qualquer donzela
Outro não casa com ela
Dança só traz prejuízo

A: Há moças que nunca casa
Detida no caritó
Não bota rouge nem pó
Cada vez mais se atrasa
Não dança porque se arrasa
Vai dando crença à lamproa
Não casa termina à toa
Quem dança consagra amor
Casa seja com quem for
Na dança tem coisa boa

B: A dança sempre termina
Com barulho ou questão
Já tenho visto prisão
Morte ou carnificina
A dança é sempre ruína
Por isso eu antipatizo
O homem que tem juízo
Não abraça a filha alheia
Oh! meu Deus que coisa feia
Dança só traz prejuízo!

A: Colega a dança é um fado
Que alegra um vagabundo
Quem não dança neste mundo
No outro mundo é dançado
A dança não é pecado
Na capital de Lisboa
O rei encosta a coroa
Dança namora e prosa
A dança é um céu de rosa
Na dança tem coisa boa

B: Sendo a moça Nazaré
Habituou-se dançando
O malandro saiu contando
O corpo dela o que é
Não tenho crença nem fé
Nem me responsabilizo
A moça que tem juízo
Não dança nem por dinheiro
Do Brasil ao estrangeiro
Dança só traz prejuízo

A: Os peixes brincam no mar
Fazendo mil piruetas
Nas relvas as borboletas,
Visitam outro lugar
Os pássaros noutro pomar
Seus trinos também entoam
O pescador na canoa
Canta e dança satisfeito
Cada um brinca perfeito
Na dança tem coisa boa

B: Quantas senhoras de bem
Foi vista na perdição
Por causa da corrução
Que a maldita dança tem
A dança não me convém
Eu protesto e antipatizo
Onde tem dança eu não piso
Oh! que brincadeira ruim
Um padre já disse a mim
Dança só dar prejuízo

A: No sertão tem tabuleiro
No serrote tem mocó
Lá no mato tem cipó
Na fazenda tem vaqueiro
No tesouro tem dinheiro
Lá na maré tem canoa,
No baixio tem lagoa
No fogo tem o calor
No coração tem o amor
Na dança tem coisa boa

B: O apóstolo João Batista
Foi morto na guilhotina
Por causa duma menina
Que dançava otimista,
Na denúncia pessimista
João Batista teve aviso,
Foi morto sem ser preciso
Por causa de Herodias,
Pois desde os remotos dias
Dança só traz prejuízo

O Azulão quando viu
Este verso da escritura
Mergulhou no meio do povo
Correu, perdeu a bravura
Fez como José Pretinho
Que quase perde o caminho
Nas trevas da noite escura

Autor: João Ferreira de Lima
Juazeiro, 02 de maio de 1956.
Fonte:http://www.jangadabrasil.com.br/revista/agosto93/es930804.asp
Poemas e Poesias 8376097041238466613

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