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O que a bebida me deu


Foi no sítio Terra Nova
Que tudo aconteceu
Mamãe inda tá de prova
Junto com um mano meu.
Eles sabe quem sou eu
Conhece minha atitude
E viro meu sofrimento
Cuma foi meu casamento
Com Maria de Gertrude.

O distrôço começô
Num sabo de tardezinha
Eu tava pisano mie
No arpende da cozinha
Aí a minha vozinha
Que Deus tenha em bom lugar
Sentôsse num tamborete
E começô a falar.

Dano concei pr’eu casar
Pr'eu armar o meu quixó
Q'ueu tava ficano véio
E ainda no caritó
E que já tava na hora
D’eu arrumá um xodó.

Foi quano eu disse vovó
A senhora tem razão
Sortei a mão de pilão
E disse assim: mãe querida
Ingome a carça cumprida
A camisa, o cilorão
Separe meu cinturão
Que eu cumprei a Campelo
Pega as meias, as butina
E um dedo de brilhantina
Mode eu passá no cabelo.

Traga o ispei, a navaia
E um pedaço de sabão
Mais o vrido de loção
Mode eu botá um tiquim
Quebre logo meu porquim
E arecôia o dinhêro
Que hoje eu vou arrumar
Uma nega pra casar
No forró do Zé Leitêro.

Fui esperá o transporte
Lá na bêra do camim
Nisso chegô bacurim
Numa C10 encarnada
Mi asubi na danada
Se sigurei no gigante
E o chofé no volante
Empurrou o pé sem dó
Subiu e desceu ladeira
Cum a hora de poeira
Nós cheguemo no forró.

Assim que pisei no chão
Tirei do bôço a cartêra
Paguei a passáje do carro
Ajeitei a cabilêra,
Pra cumeçar na intrada
Tumaro a minha pexêra.

Mais meu primo Zé Tataca
Tratou de me acarmar
Mi disse: num vá ligar
Quisso é coisa passagêra
E cumprô no butiquim
Um garrafão chei de vim
E umas cachaças brejêra.

Eu só era acustumado
Bebê ponxe de limão
E nunca tinha tumado
Nada em pé de barcão.
Num sei o que deu em mim
Que eu misturei o vim
Com brejêra e jurubeba
Uns tira-gosto de peba,
Maxixe e sarapaté
Cum mais ou meno uma hora
Eu tava só o papé.

Melado cuma um pão doce
E cum minha simpatia
Meu oiá se misturôsse
Com o oiá de Maria
Chêrosa cuma uma rosa
Bunita cuma uma frô
Qui só ficô diferente
Quatro dia para frente
Condo o efeito passô.

Eu doidim para ganhá
Todo amô de Maria
Fui falá cum seu Vavá
Marido da minha tia
E este mi imprestou
A bicicreta amarela
Eu mi arribei na cela
Emburaquei na estrada
Cum a hora bem marcada
Eu cheguei na casa dela.

Pois assim que a bicicreta
Fez o rastro no terrêro
Um vira lata latiu
De baxo dum juazêro.

Nem de parma pricisou
Uma morena botou
A cabeça na janela
Dispois tirou a tramela
Da porta de imburana
Aí eu disse: fulana
Faça favor me ajude
Me responda sem demora
Por aqui, onde é que mora
Dona Maria Gertrude.

A Peste me conheceno
Pigarriou a guela
E falou se retrocêno
Butano a mão na titela:
- "Tá procurano Maria
Pois tá falano com ela".
Quando a muié disse isso
Eu quase caí pra trás
E pensei isso é feitiço
Ou obra do satanás.

Pois a bicha era magrela
Corcunda, alta e banguela
E Tinha os beiço rachado
Falava mei embolado
E era moca dum ouvido
Era zambeta da perna
E tinha um oio de vrido.

Aí eu disse comigo
Olhano de riba a báxo
Agora só tá fartano
Essa peste sê um macho.
Pra completar o dispacho
a danada da muié
tinha ficado viuva
do finado João Quelé
e tinha para criar
uma reca de bebé.
E eu veno todos defeito
Que a muié pissuía
Ainda fui inventar
De mim casar cum Maria .

Foi dez anos de trumento
Minha união com Maria
Que durante esse tempo
Nunca mim deu alegria
Pois tudo qu’eu pissuía
Ela tratou de dá fim.
Passava o dia todim
Fuxicano nas budega
A noite ia pro terrêro
De seu zezin macumbêro
No povoado das prega.

Uma certa madrugada
Ela chegou do terrêro
Disse que tava espritada
Foi direto pro pulêro.
Matô uma galinha preta
Dispois tirô da maleta
Um livro vei de xangô
Acendeu umas vela azú
Foi aí que o sururu
Pro meu lado começô.

De cara ela quebrou
A mesa e cristalêra
Atirô com a catuxêra
Na barriga do jumento
Rasgô os meus documento
E desmanchou um giral
Inté a culher de pau
Que tava dento dum tacho
Ela enfiou na goela
E puxou o cabo em baxo.

Matou um casá de canáro
Qu’eu tinha comprado caro
Do finado Zé Preá
Pegou um pá de urú
E pipinou cum punhá
E acabou cum meus piru
No jogo de pacará .

Quebrou minha radiola
Sem nenhuma cumpaixão
Tocou fogo e acabou
Com um paió de fêjão.
Inté uma Nossa Sinhora
Benta pro Frei Damião
A peste teve coraje
De isbagaçá no chão.

Pois eu digo meu patrão
Sem tê medo de castigo
Qui tudo quanto é miséra
Essa muié fez cumigo.

Mas graças a meu bom Deus
E a senhora Aparecida
Eu conseguí escapá
Das garras da maluvida
Hoje sou um hôme livre
Pronto pra vivê a vida
Acredito e tenho fé
Que inquanto vida eu tivé
Nunca mais toco im bebida.

Léo Medeiros
Poemas e Poesias 2895228296774969622

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O Donzelo Azarado

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