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Jogo de Futibó


A munto tempo passado

Lá na Maiada Piquena
Eu era cunsiderado
Um papangú de novena.
Era tão apaixonado
Por futebó amador
Qui meu dinhêro suado
Eu num via mais a cor
Só sirvia pra pagar
Conta in mesa de bar
Pra diaxo de jogadô.

Eu num sei onde qu’eu tava
Qui me astrevi certo dia
A formá com Zé Maria
O Esquadrão da Maiada
Muntei na burra celada
Fui falá cum seu Cordeiro
Que prometeu arrumá
As terra do tabuleiro.

Intão a gente pegou
Foice, inxada e facão
A dispois cum ciscador
Tiremo as pedra do chão
Chicó apregou as trave
Com imbira de agave
Amarrou os travessão
E Dedé de seu Vavá
Trouxe da Serra Corá
Uma bola capotão.

Pois só era o que fartava
Pra animar o pessoal
Fizemo logo uma cota
Pra comprá o material
Como o dinhêro num deu
No fim quem dançou foi eu
Cum prejuízo total.

Peguei corda e me disfiz
Dum canáro cantador
Vendi galinha, guiné
Um bode reprodutor
Mais a rede de pescar
Tudo isso pra comprar
O terno de jogador.

Más compremo tudo a vista
No armarim de Cancão
Umas camisa de lista
Uma duza de meão
Quichute, bola de côro
Um par de luva e carção.

Passemo quase três anos
Sem perder uma parada
Corria já solta a fama
Do Esquadrão da Maiada
Por tudo quanto é lugar
Sertão, cidade e chapada.

Eu mi alembro inté do dia
Que nosso time istreô
Contra o time dos virgia
Que por siná nós ganhô
Vei o time de Lolô
E levou uma lapada
Si num mingano foi sêis
Somente Zé do Isquêro
Que era nosso puntêro
Nesse dia marcou três.

Num sabo de aleluia
Nosso time foi jogar
No povoado das cuias
Pertim da Serra Corá.

Era a inaiguração
Do estádio João Trajano
Somente pra jogador
Arriba de trinta ano
Valeno um arto tutu
Banda e mêa de piru
E trêis caxa de tuzano.

Como o tal regulamento
Só era pra veterano
E o craque do nosso time
Só tinha 18 ano
Maginemo no assunto
Adispois de pensá munto
Inté que achêmo um prano.

Compremo logo uma caxa
De maizena lá num bar
Carreguemo o jogadô
Patrás dum pé de juá
Dispejemo meia caxa
Em riba da cabelêra
Em meno de um minuto
Ficou um véi de premêra.

E começô a partida
No Estádio João Trajano
Maiada Futibó Crube
Contra o Iscrete Serrano
E Zé Isqueiro no mei
Dos jogador veterano.

Como eu tava contudido
Num pude participar
fiquei de fora assistino
O nosso time jogar.
Cum meia hora de jogo
Você pode acreditar
Que a Maiada tinha feito
Quatro a zero no pracar.

Lá pela ponta direita
Zé Isquêro bagunçava
Pois fazia o que quiria
Cum pobe que lhe marcava
Um sujeito cabiludo
Por nome de Ontoi Cascudo
Veterano inté demais
Que logo sincabulou
Olhou pra Zé e falou
Esse Nêgo é o satanás.

Pois tudo quanto é jogada
Nosso punteiro fazia
Dribava, maicava gol
Na maior categuria
E a trucida no campo
Batia paima e dizia:

Ô véio pra jogar bola
Isso é o Pelé do sertão
Faz pena um caba desse
Num ter ido a seleção.

Mais como diz ditado
Antigo mais munto certo
Que tudo qué feito aqui
Nesse mundo véi liberto
Por mais que seja iscondido
Acaba por discuberto.

Lá pelo segundo tempo
Já perto de terminar
O céu ficô mei cinzento
Começô a truvejar
Pra completá o azar
São Pedro abriu a tornêra
E começou descer uma
Lebrininha moiadêra.

Cum pouco tempo, patrão
Lá se vem o dismantelo
A lebrina derribou
A maizena do cabelo.
Apois o rosto de Zé
Ficou branco, iguá a barba
Dum tá de papai Noé.

Condo os caba dero fé
Foi um negóço de louco
Nisso chegou um negão
Um tá de Arranca Toco
Deu um murro em Zé Maria
Que ainda hoje é moco.

Pois o pobe de Pitoco
Apanhou como animal
Eu tombém fui obrigado
A intrá no quebra pau
E um tá de Trancilim
Deu um bicudo em mim
Cum tanta da violença
Aqui pro riba da pá
Que toda veis qu’ eu me alembro
Eu já sinto a dor vortar.

E desse dia pra cá
Qui chova ô qui faça só
Num quero saber de jogo
Num jogo nem dominó
E sou capaz de brigar
Se viere mi falar
Em jogo de futibó.

Autor: Léo Medeiros

Esse poema está presente no CD Minha Terra Meu Sertão de Léo Medeiros: Retratando o sertão em versos
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O Donzelo Azarado

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